I) O QUE É O DEÍSMO?

O deísmo segundo podemos encontrar no dicionário da língua portuguesa e em sites educativos na internet é o sistema ou postura filosófica que admite a existência de Deus, mas rejeita qualquer possibilidade de revelação divina. É uma doutrina que considera a razão como única via capaz de nos tornar conscientes da existência de Deus, desconsiderando a importância da prática de qualquer religião denominacional ou crença em verdades reveladas e seus dogmatismos.

II) ORIGENS E DESENVOLVIMENTO DO DEÍSMO

A raiz do deísmo, sem ainda levar este nome, nasce na filosofia grega, tomando por partida a teoria da “causa primeira” de Aristóteles, que afirma que se estamos de acordo que o universo está em movimento, pressupõem-se uma causa primordial à origem deste movimento, o chamado Princípio Causal. Mas o deísmo começa a tomar forma de fato com o surgimento de obras críticas ao cristianismo e aos sistemas religiosos, a exemplo de Edward Herbert (1583-1648) com seu livro De Veritate, porém sempre se mantendo a crença essencial em uma causa divina para o universo, porém livre de dogmatismos, das causas de divergências entre as diferentes religiões, superstições, misticismo, subordinação eclesiástica, etc. O apogeu do deísmo veio com Iluminismo no final do século XVII através de homens como Thomas Hobbes, Rousseau, John Locke e Voltaire.

Os princípios deístas, essencialmente democráticos, libertários e progressistas, tiveram forte influência na formação de estruturas políticas e mesmo religiosas de muitos países a partir da idade moderna, tendo influenciado desde filósofos, teólogos até políticos. Mas logo, com o advento do ceticismo científico e acadêmico, surgiram novos sistemas filosóficos, a exemplo do materialismo e do naturalismo, que passaram a competir e mesmo até argumentar contra o deísmo, levando muitos deístas para o ateísmo ou agnosticismo, justamente isto foi o que alimentou a crítica posteriormente levantada por parte das religiões que se sentiam ameaçadas inculcando no pensamento das massas de que o deísmo ao propor o livre pensamento e questionamento dos dogmas acabava por levar inevitavelmente ao ateísmo, fazendo surgir verdadeiras campanhas para caluniar a filosofia deísta e torná-lo sinônimo de ateísmo, o que nunca foi.

III) BASE DAS CRÍTICAS AO DEÍSMO

As críticas ao deísmo, diante do que foi exposto no final do item II, firmaram-se em especial nas seguintes acusações:

  • O deísmo proporia um Deus que criou o Universo, suas Leis, e depois o deixou entregue a si mesmo em sua evolução, diferentemente do teísmo que proporia um Deus que através da epifania se faz presente e demonstra importar-se com a felicidade da criatura humana, intercedendo individualmente na vida de cada criatura humana.
  • Acusações por parte de clérigos cristãos de que o deísmo seria na realidade um anti-cristianismo, ao perceber-se que o deísmo não crê em intermediários entre Deus e o homem, dispensando qualquer idéia de salvação pela fé, redenção por terceiros, ressurreição de mortos ou milagres de qualquer outro gênero, o que tornaria a crença em Jesus apenas um simbolismo mitológico como seriam o de outras religiões “mortas”.
  • Antipatia popular por consequência da postura agressiva de certos deístas famosos e influentes, entre eles filósofos e escritores, aonde as religiões foram por estes publicamente tratadas como fantasias da mente humana, herança das mitologias, de supersticiosas e discriminatórias entre si, incompatíveis com uma sociedade científica e globalizada, atraindo assim forte rejeição por parte das religiões dogmáticas e seus cleros, que trataram logo de inflamar a opinião popular contra tais pensamentos “hereges”.
Estas críticas serão contestadas ao longo das postagens deste blog. 

IV) HERANÇA INDISCUTÍVEL DO DEÍSMO


Ainda que o deísmo possa estar esquecido e de certa forma difamado, é indiscutível que ele deixou algo valioso e inapagável na cultura de nossa sociedade ocidental em especial, o pensamento de que é necessário o uso da razão mesmo em assuntos da fé, utilizando a razão como moderador para evitarem-se as violências e falácias que podem ser movidas por uma fé cega, infringindo os direitos que são comuns a todos acima de qualquer opção religiosa, o que trouxe consigo o ideal e estabelecimento da dissociação de Estado e religião, bem como das constituições e do direito laico.
Comentários
0 Comentários