segunda-feira, 12 de maio de 2014

Deus que foi embora?

É muito comum encontrarmos textos pela internet afirmando que para o deísmo a Criação, o Universo, seria obra de um Deus que a concebeu e deixou-a entregue a si mesma, o que pouco diferenciaria o deísmo do ateísmo fora a aceitação da existência de um Deus e do ato da criação, sendo quase equivalentes.
Nosso problema com este tipo de informação que encontramos é que o deísmo não é uma filosofia institucional, não possui cátedra, não possui órgão oficial ou “bíblia” com dogmas a respeito de sua filosofia espiritualista. O pensamento que resume o deísmo é simplesmente que trata-se de uma postura filosófica que admite a existência de um Princípio Criador mas nega a revelação divina e qualquer ideia divergente do pensamento científico como as propostas pelas religiões.
Contudo, e aqui entra a opinião do autor deste blog, não necessariamente o deísmo está atrelado com a ideia de que Deus “abandonou” sua Criação, penso ser esta uma definição criada como reação de teístas, em especial das tradições judaico-cristãs, em relação ao deísmo justo na época de seu fortalecimento que foi no Iluminismo, difamando o mesmo. Muitos filósofos deístas falam das Leis Naturais, como a própria evolução assim o é, Leis atuantes em todo o universo (o que inclui o homem), desta forma Deus estaria manifestado em suas próprias Leis inexoráveis, a atuação das Leis é em si a atuação da Vontade da Inteligência Universal (chamemos Deus). O que o deísmo não admite é um Deus antropomórfico, fruto de mitologias e superstições, que, segundo acreditam os teístas está cuidando de sua criação, pode atuar arbitrariamente e individualmente, pode infringir se assim quiser suas próprias Leis Naturais, pode intervir na vida de cada homem... Justamente a indignação ao longo da história, com as catástrofes, os genocídios, as injustiças sociais, os crimes hediondos, é que causa o rechaço à visão de um Deus que poderia ter agido e não agiu, dando força ao pensamento ateísta. Na visão deísta, somos os únicos responsáveis por nossas misérias ou felicidade, mas inevitavelmente devemos nos alinhar com as Leis Naturais, como a Lei de Evolução, para que não soframos as consequências (Lei de Causa e Efeito). Nesta visão existe assim a imanência desta Inteligência Universal, que está o tempo todo presente, e não ausente.
A barreira para compreender a postura deísta é a visão herdada das religiões de um Deus que é ao mesmo tempo um ser, pois todo ser é limitado, possui um corpo, e um Deus assim teria criado o Universo como um oleiro que faz um vaso. Quando vemos Deus como a Inteligência presente no Universo que cria a si mesmo, governa a si mesmo, que não é algo que está “lá” enquanto estamos “cá”, fica mais fácil ver que Deus para o deísmo é muito diferente do que é para as religiões, e por isto não é tão simples avaliar o deísmo pela ótica religiosa.

Fabiano Machado.
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